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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Rio, 14 graus

É só o inverno chegar que a gente descobre quem já foi pra Europa. E descobre também que é engraçado. “Ai, carioca é muito engraçado. Se agasalha no Rio. Eu já fui pra Europa e sei o que é frio de verdade.” Vamos analisar a situação...

Meu corpo está habituado a uma temperatura entre 25º de 40º. Um “belo” dia, faz 14º (CATORZE GRAUS!) e meu corpo é que é exagerado de enviar para o meu cérebro a mensagem de frio? Exagerado é quem tem que esperar um inverno europeu para colocar um cachecol.

Ainda tem mais essa: cachecol e luvas são o parâmetro do exagero, são os elementos que tornam você um “carioca engraçado”. Se estiver de sobretudo e botas, então, pode se candidatar ao posto de “carioca hilário”. Porque estar de blusa e casaco – duas camadas para aquecer a barriga, os braços e as costas -, beleza. Mais ai de você se quiser proteger as mãos e o pescoço. Esses merecem congelar. Qual é a da rejeição?

E a crítica ao “carioca engraçado” vem sempre com um ar de superior, como se o frio europeu fosse um conhecimento que desse mais valor ao turista brasileiro. Mas, agora falando sério, qual é o problema de quem sente frio se agasalhar? Qual é o defeito ou erro do carioca que usa cachecol? Acham que não estamos com frio de verdade? Nããããão, colocamos vinte casacos, mas na verdade estamos morrendo de calor e continuamos agasalhados porque... errr... porque... queremos sentir cheiro de naftalina. Improvável, não?

“Ai, Carol, você que levou para o lado negativo e interpretou como uma crítica. Nós, todas as 127 pessoas no Facebook que dizemos que carioca é engraçado, estamos apenas fazendo um comentário inocente, não temos nada contra o fato de o carioca se agasalhar.” Não, não acredito. Simplesmente porque acho que, quando não tem ninguém olhaaaando, na hora de dormiiiir, todo mundo vira “engraçado”, calça meias e se cobre com edredom até o nariz. Quando estão no carro com insulfilm para não serem reconhecidos, ligam o aquecedor. Então, pronto, tá frio.

Não acho que 14º seja igual a 0º ou a -10º, claro que não. Mas ainda não desenvolvi a capacidade de informar à minha pele que “oooolha, daqui a seis meses, vai fazer um frio muuuuito pior que este a alguns milhões de quilômetros de distância, por isso, pare de tremer corpo mal-criado”.

E corpo também não tem memória para temperatura. Se tiver, do ponto de vista biológico, o meu é esclerosado. Da primeira em vez que viajei ao Hemisfério Norte no inverno, prometi: “nunca mais vou reclamar do frio do Rio”. Mentiiiiiira. Não cumpri. Reclamei assim que a temperatura passou dos 20º. Para baixo, é claro. E esse é meu pecado a cada inverno – descumprir uma promessa. Podem me criticar por isso, não pelo meu cachecol.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Segunda voz

“Vamos vender um milhão de discos”, garantia Welson, mais conhecido como Luciano. Bem mais novo que Mirosmar – mais conhecido como Zezé -, ele incentivava o irmão a persistir na música e acreditar que um dia “vai dar certo”. Zezé, casado e com duas filhas, já não se dava o direito de arriscar. O irmão, cheio de juventude, também já era pai, mas ainda sonhador.

Essa foi a cena que mais me marcou em "Dois Filhos de Francisco", filme ao qual assisti ontem pela primeira vez. Não sei se viajei demais, se filosofei demais. Diga-me você, que já assistiu ao filme ou que leu a descrição da cena ali no primeiro parágrafo.

Realidade ou licença poética, no filme, é Luciano quem desperta a esperança nos sonhos de Zezé, e a segunda voz da dupla fala mais alto. A cena mostra o processo de convencimento. Não muito difícil, é verdade, a partir do momento em que Zezé escuta sua segunda voz em vez de abafá-la como fazemos, quando escutamos somente a razão, quando escolhemos o caminho padrão.

Mas por que calar um sopro de juventude que tem algo a nos dizer? Por que não dar atenção como se estivéssemos sem paciência para um irmão mais novo? Por que deixar nossos sonhos sempre com a segunda voz, se eles podem estar tentando nos mostrar o caminho do sucesso?


O enredo que conta a história da dupla sertaneja dura, ao todo, cerca de duas horas. Mas me identifiquei mesmo com esses aproximadamente 20 segundos. Escutando os argumentos de Luciano, pensei: ele estava certo. O incentivo levou a dupla às rádios, às lojas de discos, aos palcos. E, gostos musicais à parte, não podemos negar, eles fizeram sucesso. Venderam um milhão.


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Acordar

É o incômodo
Que me faz levantar

Ele me martela
A cabeça
A alma

É essa pressão
Que me faz levantar

Para mudar
O dia
O mundo

É essa vontade
Que me faz levantar

Para fugir
Das regras
Dos limites

É essa liberdade
Que me faz levantar

Acreditando
Nos sonhos 
Que podem dar certo

É essa criança
Que me faz levantar


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Nã-nã-ni-nã...

Sabe, eu tenho uma peninha do "não". Ele existe e vale tanto quanto o "sim", os dois são igualmente importantes em qualquer língua. Mas o "sim" é sempre... Ah, o "sim" é sempre bem-vindo, é sempre o bonzinho da história e é tão... independente.

Sim, porque o "não", coitado, nunca consegue agradar, se estiver sozinho. Para não ser mal-visto, costuma ser seguido por seu amigo "sinto muito", disfarçado no meio de um "Hoje, não vai dar" ou antecipado pelo "Gostaria muito, mas".

Porque se alguém solta um "não" assim, nu com um ponto final, sem véus e enfeites, como alguém que só quer negar, o "não" torna-se grosseiro, ríspido, hostil.

O "não" solta uma lágrima tímida do canto do seu til cada vez que alguém fala que não gosta de dizê-lo. Há quem evite encontrá-lo num diálogo e foge do assunto, faz sacrifícios injustos consigo mesmo, tudo para evitá-lo.

E o "não" lá, só esperando seu momento, preso na garganta, ou num coração apertado. Ele espera ser levado pelo vento depois de solto por um par de lábios qualquer. O "não" não quer estar em corações, ele quer ir de lá para cá, daqui para lá, preenchendo umas lacunas, ajeitando uns "sins" mal colocados por aí.

Coitado do "não", ele só queria ser falado livremente, quando fosse necessário, sem disfarces, com sinceridade, sem precisar se esconder e sem fazer mal a quem o escuta ou a quem o diz. Mas não.



segunda-feira, 11 de março de 2013

Eu faço a comida, você lava a louça

Os homens vão continuar não realizando atividades domésticas enquanto as mulheres continuarem cobrando ajuda nas atividades domésticas. Não é uma questão de inverter os culpados, mas de responsabilizar todos igualmente. Cobrar ajuda no que é obrigação é como pedir por favor. "Ajuda" remete a um auxílio complementar a uma atividade de responsabilidade de outrem.

Enquanto homens e mulheres não se virem totalmente (e igualmente) responsáveis por todos os aspectos que envolvem o lugar em que vivem e não ensinarem isso às crianças que por ventura também convivam naquele espaço, nada vai mudar. Principalmente, enquanto não houver essa visão equilibrada. Porque esse post é menos sobre o que falta nos homens que sobre o que sobra nas mulheres que se veem totalmente responsáveis por determinadas tarefas e não consideram que os homens que dividem o espaço com ela têm a mesma obrigação. Sejam maridos, filhos, pais, irmãos, cunhados...

Enquanto houver mulheres que acordam aos domingos pensando no que farão para o almoço, haverá homens lhe perguntando o menu do dia. Ou enquanto mulheres pegarem as roupas dos homens para passar, derem um pontinho quando descosturar, ou colocarem vanish quando manchar porque acham que eles não saberão como fazer, nada mudará. Enquanto as mulheres não pararem de se esquecer como aprenderam a passar, lavar e cozinhar... Não foi tão difícil, eles também conseguem.


Ou enquanto mulheres trocarem fraldas sujas para, cheirosas, as crianças pularem no colo do papai para brincar. Enquanto as mulheres varrerem o chão e colocarem o lixo para fora. E os homens a descansar...
Enquanto pessoas ainda se surpreenderem com um homem que arruma a própria cama, tudo continuará na mesma. Enquanto homens receberem parabéns por fazerem suas obrigações, tudo continuará na mesma. Enquanto mulheres continuarem exaltando seus maridos no Facebook por, surpreendentemente, encontrarem a janta pronta e o filho de banho tomado, ao chegarem em casa cansadas, elas nunca deixarão de se surpreender. Se ele estava em casa com a criança e o fogão, por que não?

Se a sociedade não é feita só de homens ou só de mulheres que todos nos sintamos igualmente responsáveis pelas mudanças que se fazem necessárias, conscientes de que sempre nos dará mais trabalho mudar que nos incomodar e acomodar.

Não excluo, de maneira nenhuma, a responsabilidade dos homens de tomarem a iniciativa, mas, nesses últimos 24 anos, tenho visto muitas mulheres contribuindo com essa inércia no lar.


Acho justo dividir tarefas por habilidades individuais. Cada pessoa tem mais facilidade em determinados afazeres e acredito que isso deve ser respeitado até para evitar pessoas diariamente insatisfeitas ou resultados mal realizados. O que não acho justo é a divisão por gênero - esse critério que costuma desequilibrar os trabalhos em casa.


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Encantos de samba-rock

Árvores secas são inspiradoras, as floridas também.

Flores desabrochadas são românticas, as murchas também.


O sol se pondo  é poético, o amanhecer  também.


O sol quente é energizante, a tarde chuvosa também.


Uma praia tranquila revigora, o mar de ressaca também.


Os tímidos são misteriosos, os  extrovertidos também.


Cabelos encaracolados são encantadores, os lisos também.


Olhos azuis são marcantes, os negros também.


A pele jovem é bonita, rugas com história também.


O som entretém, o silêncio também.


O samba faz mexer o corpo, o rock... 

Bem, o rock  faz mexer a cabeça e batucar os pés. Então, também.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

De volta ao presente

A moda, não de agora, mas a que surgiu há algum tempo e ainda permanece, é ser retrô. Ou vintage. (E, sim, há uma diferença que não vem ao caso entre os termos.) O fato é que está na moda fazer referência ao antigo. O próprio estilo  hipster, que vive seu auge desta época, utiliza esse recurso e os mais descolados acham super cool. Mas, vai colocar uma roupa que era moda no verão passado... "Que roupa ridícula!"; "ele ainda usa isso?" serão  os comentários a seu respeito no dia seguinte. Ou na sua presença mesmo, pelos celulares. Fora os olhares de desprezo.

Flash back, tudo bem. A geração mais jovem já vai a festas anos 90. Digo "mais jovem" porque os que têm menos de 20 anos ainda não tiveram um passado musical com histórico suficiente para preencher a playlist da discoteca. Ou do baile, dependendo da geração a que seu estilo faça referência. Mas veja o que acontece se o DJ da rádio tocar aquela música do ano passado. "Nossa, que música velha!", as pessoas dizem em repúdio, trocando de estação.

A música que você dançava loucamente ano passado tornou-se ruim alguns meses depois? Como foi esse veloz processo de perda de qualidade? Nada contra metamorfoses ambulantes, mas rejeitar dizendo que é ruim  não seria depor contra si mesmo? A roupa que você usou na estação anterior ficou feia de repente? Mas aquela anos 70 continua fazendo sucesso, né? Ou melhor, voltou a fazer sucesso. Por quê? Saudosismo à la Meia-noite em Paris? Por que o ano passado também não tem o privilégio de ser adorado hoje? Por que ele só será adorado daqui a 20 anos?

Bem, como perceberam, ainda não consegui acompanhar a lógica do velho-ruim X velho-novo-bom. Prefiro não me privar do que gostei ano passado, se ainda me agradar, sem esperá-lo voltar à moda. E mesmo se o velho tiver virado novo outra vez, prefiro não datar e usar apenas, se gostar.

E essa lógica, deu pra acompanhar?