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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O balanço


O vento forma ondas
Na areia e no mar
E, de tanto os pequenos grãos rearrumar,
O vento formou lagoas para o povo se banhar

Na mesma direção,
Ventam as folhas dos coqueiros
E os cabelos das Iracemas,
Como todas as meninas daqui gostariam de se chamar
Das mulheres rendeiras às mulheres rendá

As saias a dançar
As peneiras a farinhar
As redes a embalar

A castanha de caju a sorrir
Como fazem os cearenses,
Que encurvam até a voz no jeito de falar

Tudo dança, rebola e encanta
No Ceará, nada é linear


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A cidade que nunca dorme


Uma das coisas mais saborosas (literalmente) de Nova York são as tortas de maçã vendidas em qualquer uma das inúmeras confeitarias existentes por lá. Em inglês, o doce leva o sonoro nome de “apple pie”, assim, num crescente, com vários P’s, como uma combinação de notas musicais.

Não haveria nome mais apropriado para o doce da “Big Apple”, a cidade em que se ouve um saxofone em cada esquina. Ou em cada estação de metrô. O que, na prática, dá quase na mesma. Pode-se ir a qualquer lugar dentro de Nova York (e até a alguns fora da cidade) usando o trem. Alugar um carro por lá é estragar a viagem, é se fechar no ar condicionado e deixar de sentir os cheiros que o vento traz. É perder um artista que faz da calçada seu ateliê, é deixar de tocar as pedras de um edifício residencial com entradinha em nível mais baixo que a calçada, é não se encantar com uma flor de cor inusitada.

E é assim, por caminhos pelos quais não se passa correndo, que se decide entrar e uma estação de metrô e, em 20 minutos, atravessa-se Manhattan de uma ponta à outra e, em 40, chega-se até a outro estado, se estivermos falando de um brasileiro-ávido-por-compras-no-exterior que quiser dar um pulinho em Nova Jersey para visitar “Outlet malls”.

Aliás, minha (humilde) dica é para que não se gaste mais que 10% do tempo com compras em uma cidade tão rica culturalmente. Gaste mais dinheiro em peças, museus, show e “tips” para os artistas de rua que em roupas, perfumes e eletrônicos, se o que se busca é enriquecer e não pagar excesso de bagagem.

E se você não estiver satisfeito com os músicos por toda a parte, pode dar uma conferida em um especial (não necessariamente especial enquanto músico), indo a um restaurante com música ao vivo onde o clarinete é tocado por ninguém menos que Woody Allen. E é por causa dele que “o restaurante com música ao vivo” torna-se “um show no qual se pode pedir comida”. Sim, porque, apesar de outros quatro ótimos músicos no palco, ninguém tira os olhos de Mr. Allen, ninguém deixa de dar uma risada a cada trejeito peculiar do cineasta.

E se pegar um dia chuvoso de outono, não se considere sem sorte, é uma ótima oportunidade para passar a tarde no Metropolitan Museum of Art, onde se encontra, em único (e enorme) lugar, algumas daquelas obras de arte que se vê em livros e exposições esporádicas para todos os gostos. Eu mesma, que aprecio arte como leiga, fiquei encantada, há alguns anos, com uma exposição sobre moda e os estereótipos de beleza e, da última vez, deliciei-me com Andy Wharol na mostra “Sixty Artists, Fifty Years”, que reúne obras do próprio Wharol e de artistas influenciados por ele.

Enfim, uma cidade com muitas opções para tudo na qual você só precisa pegar longas filas se estiver muito ansioso para assistir ao novo Atividade Paranormal ou para comprar ingressos para o show do Bruno Mars. Às vezes, é preciso enfrentar uma para ir ao banheiro também, mas aí vem uma boa notícia para as mulheres: todos têm papel. Todos mesmo, incluindo o banheiro público da praia de Coney Island.

Enfim (como eu ia dizendo), com tantas opções, se, depois do jantar, você ainda não tiver night certa no Village, na dúvida, vá para a Times Square, mais quente que os outros pontos de Manhattan. Desconfio que seja pela grande quantidade de luzes e de gente.

Bem... Vá lá, batuque uma música qualquer com o pé, eleja uma confeitaria e peça uma fatia de épolpai.
Ah, e só durma se não tiver outra opção.





quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Sonho e realidade


Viajar é como sonhar, é viver sensações que não são reconhecidas pela memória, é visitar lugares nunca antes imaginados. Viajar é tocar novos solos, andar contra novos ventos, sentir novos perfumes. Viajar é escutar novos sons, testar pronúncias que nem sabíamos que nossos lábios eram capazes de produzir. É deixar que esses mesmos lábios testem novos sabores. É escutar expressões e entonações cotidianas que caracterizam um povo e sua cultura. É tocar a textura de novos climas, flores, frutos, pedras, águas. É ver as formas próprias do relevo de cada lugar.

Viajar é como sonhar, mas não aquele sonho de lembrança remota no dia seguinte. Uma viagem é como um sonho que se questiona se todas aquelas sensações tão nítidas foram reais. Questiona-se quando se desperta com um pulo da cama ou quando se abre porta de casa, com saudades do lar: foi tudo de verdade?

Viajar é viver, é sentir-se parte desse mundo tão imenso e conhecer cada cantinho dele, cada pedacinho único e especial, que não se assemelha a nenhum outro do universo. Viajar é sentir-se vivo quando o mesmo Sol toca a pele em qualquer coordenada geográfica que se esteja.

Viajar é sentir-se parte do mundo, em contato com naturezas tão diversas que fazem a máquina Terra funcionar e nos abrigar. É estar em contato com as transformações feitas pelo Homem e pela Ciência que possibilitaram que aquele ponto único do universo fosse modificado também de maneira única.

Viajar é como sonhar, pois é um hiato de tempo fora da rotina, que em algum momento se fará presente de novo. Viajar é como sonhar, pois se vai a lugares desconhecidos onde se convive com pessoas que nunca mais serão vistas. Viajar é como sonhar porque uma hora temos que acordar - ou voltar. Viajar é viver intensamente. E sonhar intensamente.