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quarta-feira, 26 de março de 2014

Parei de esperar

Sabe o trabalho dos sonhos? Descruzei os braços e fui começar.
Sabe o cinema marcado há três dias, mas que, na hora, dá preguiça de ir? Tomei coragem e decidi furar.

Sabe o alisamento que demora três horas? Amarrei um lenço no cabelo e fui mergulhá-lo no mar.
Sabe aquele vestido lindo? Economizei no cabelo e agora posso comprar.

Sabe aquele corpo maltratado por açúcar e fritura? Passei a cuidar.
Mas sabe a academia? Larguei e fui dançar.

Sabe as pessoas que fazem o bem? Passei a amar.
Sabe as energias negativas? Passei a ignorar.
Sabe a fofoca? Decidi só escutar.

Sabe o suco que caiu no chão? Passei um pano e deixei pra lá.
Sabe o cachorrinho que tá ali no canto? Joguei um ossinho pra ele pegar.

Sabe as coisas pequenas? Parei de reclamar.
E sabe as grandes? Comecei a me dedicar.
Sabe a paz que falta? Fechei os olhos e fui rezar.

Sabe o sol que tá esquentando? Respirei fundo e deixei queimar.
Sabe a chuva que tá caindo? Senti o cheiro e deixei molhar.
Sabe aquela música bonita? Perdi a vergonha e comecei a cantar.

Sabe a felicidade? Comecei a praticar. Em vez de esperar chegar.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

12 horas de apuração

Acordo atrasada, pulo da cama, me arrumo em meia hora. A primeira roupa que vejo, tudo que vou precisar na mochila, uma banana enquanto calço o tênis. Sem esquecer o guarda-chuva.

Ponto de ônibus. Cinco minutos. Nada. Vou chegar atrasada. Um táxi. Parou. Bom dia Lourenço Jorge por favor. "Barra da Tijuca? Vou pegar um trânsito horrível pra chegar no Leblon. " Eu que sei, moço, só tô no seu táxi porque não tenho tempo para esse trânsito horrível.

Chegamos, já estavam à minha espera. Eu pensava que conversaria com algumas voluntárias que estivessem lá em atividade. Mas a coordenadora conseguiu mobilizar metade do grupo, que, mesmo fora de seu horário, foi ao hospital contribuir com minha matéria.

Almoço entre amigas, novidades, batata assada com bastante queijo.

Ônibus. Trânsito bom. Casa da sogra. Literalmente. Alguns e-mails, ligações. Pausa pro café. Uma aula particular de matemática rolando ali do lado. Área. Perímetro. Não gosto da professora nova.
Tá na hora, próxima entrevista. Já estavam à minha espera mais uma vez.

Cumprimentos. Vamos começ... "Não, espera, vamos nos conectar um pouco antes." Pega minha mão, olha nos meus olhos. Tomara que goste da minha energia. Senão, adeus entrevista. Pronto. Tudo bem. Professora de yoga.
Depois, aluna do curso de maquiagem. "Não, hoje não é dia do curso. Ela veio só para sua entrevista." Ah... (Não precisava.)

Volto pra conexão. "É na sala de dança, mais pra dentro da favela." Tudo bem, vambora. Muitos cumprimentos a cada viela. Crianças pintando. "Se quiser, pode fazer uma aula de yoga com a gente." Fico curiosa. Será que não vai ficar tarde?





"Do outro lado, tem curso de depilação também." Vamos lá, então. "Quer me entrevistar?" Não quero atrapalhar a aula. (Se eu te entrevistar, não volto a tempo pra aula de yoga.)

To indo, obrigada, tchau. "Já? Não vai me entrevistar?" Talvez outro dia. Sorriso amarelo... Fui.

Tapetes, vela aromatizada, pernas cruzadas, música. "Vai fazer? Então entra." Não dá nem tempo de olhar meu celular? Tem umas duas horas que não pego nele... Não, não dá, já vão começar.

Respira... Mantra... Muitos iniciantes... Explicações sobre a aula... Será que tem outros iniciantes mesmo ou é só para me enturmar?

"Temos que ser nós mesmos, nos desprender do que nos foi ensinado, parar de ir a buscas que não são nossas..."

Tenho nós... Nos pés, joelhos, coluna, pescoço, alma...

Um menino de uns 9 anos entra discretamente, senta ao lado da avó, imita os movimentos da professora, como se brincasse de mímica, mas com a concentração de quem está levando aquilo a sério...

A professora propõe uma conversa sobre o tema da minha pauta...

Me sinto leve... Não sei se volto para desatar meus nós ou se não volto para não correr o risco de encontrar novas dores... Ah, sem pressa...

Ponto de ônibus. Ai, minha perna. Fome. Não, não vou comprar um salgado, acabei de fazer yoga, afinal. Escuro. Esse vai só até o meio do caminho. Parou. Fila pra entrar, mais tempo pra decidir. Escuro. Vou nesse mesmo. Sem pressa...

Ponto de ônibus. Esse só vai até o meio (do meio) do caminho. O outro vai demorar? "Não sei." Fila pra entrar, mais tempo pra decidir. Vou nesse mesmo.

Trânsito bom. Sem pressa... Me sinto bem, apesar de cansada. Saltei. Ando mais um pouco. Ai, minha perna. Escuro. Sem pressa...

Cheguei. Novela. Janta. Banho sem pressa... Papo. Cachorro. TV.

Escovar os dentes. Boa noite. Despertador. Será que amanhã consigo acordar na hora?

Nossa, quanta gente do bem a minha volta hoje! Sorri. Dormi...

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Vai a pé ou vai de trem?

"Senhores passageiros, desculpem a freada brusca".

"Ahn? Ela pediu desculpas pela freada?! Po, que legal! Um pouco de educação e respeito com os passageiros, né?"

Desculpem – agora sou eu que peço -, é que não tô muito acostumada com essas coisas. Ando mais de ônibus, sabe? Pego o metrô só de vez em quando. Isso é menos uma escolha que falta de opção. É que o transporte subterrâneo ainda não chegou nesses lados da cidade.

Por isso fiquei tão impressionada com a fala da locutora no metrô. Achei interessante o fato de alguém se preocupar em orientar a moça a pedir desculpas nessa situação. Achei que esse tipo de coisa não existia no transporte público do Rio.

Acho até que a tal da freada tinha passado despercebida e só fui reparar mesmo porque a moça falou. É que, no ônibus, a gente tá tão acostumada com isso. As freadas costumam até ser piores que aquela. Eu tava de boa... Mas gostei tanto de terem me pedido desculpas...

O motorista do ônibus nunca me pediu desculpas por freadas bruscas. Nem por curvas bruscas, arrancadas bruscas, informações bruscas, buzinadas bruscas, falta brusca de troco, uso brusco de celular enquanto dirige, cigarros bruscos, música em volumes bruscos...

De tão impressionada com o raro gesto de educação, fiquei me questionando o motivo daquela desculpa. Porque, vamos combinar, a moça não tava preocupada se eu fiquei ofendida com a freada, não é? Nem quer que eu ache o condutor uma pessoa gente boa que não frearia bruscamente de propósito. Então, por quê??

Só por educação é uma possibilidade. Mas ainda assim continua sendo estranho. Por mais estranho que possa parecer alguém se impressionar com educação.

Na hora, pensei: "Então, quem anda de metrô com mais frequência é tratado com mais educação, costuma se sentir mais respeitado...? Que legal, as pessoas daqui não devem chegar tão estressadas ao trabalho." Eu sei, nem tudo são flores. Os vagões muitas vezes ficam superlotados, as pessoas empurram para entrar e sair, o trem para muitas vezes entre as estações, atrasando a chegada. OK, eu já passei por isso tudo também. Mas, comparando com a vida de quem anda de ônibus, as pessoas são um pouco mais respeitadas, né? Até ganham desculpas!

E enquanto pensava, eu olhava aquele vagão limpinho, com ar condicionado, bancos preferenciais vagos... E aí, percebi: nós, passageiros, também somos mais educados no metrô. Não jogamos lixo no chão e não sentamos nos bancos de cor laranja ou azul.

Mas, se as pessoas que andam de metrô e de ônibus são as mesmas, por que elas se comportam diferente em um e no outro? Tá, às vezes, não são literalmente as mesmas, mas fazem parte do mesmo grupo heterogêneo de pessoas que utilizam transporte público no Rio de Janeiro. Sem falar nos casos em que são realmente as mesmas, pegando metrô e depois ônibus ou o contrário. Ou então variando entre um e outro conforme o destino. Será que essas pessoas mudam de comportamento?

Enfim, vocês entenderam. Somos tratados diferentes no ônibus e no metrô. Mas nós também somos diferentes num e noutro. E aí, quem nasceu o primeiro: o ovo ou a galinha? Porque, mesmo não chegando a muitas conclusões nessa reflexão, nada me tira da cabeça que os comportamentos estão relacionados de alguma maneira.

Somos mais educados quando nos sentimos mais valorizados? É a velha história da "minha educação depende da sua"? Espero que não, essa máxima não faz muito sentido para mim. Por que não jogamos papel de bala no chão do metrô? E olha que no ônibus, ainda tem uma opção a mais (tão mal educada quanto) que é jogar pela janela. Mesmo assim, o ônibus tá cheio de lixo no chão...

Por que aceitamos ir em pé no metrô para deixar vagos os banco de cor laranja ou azul? O ônibus é mais desconfortável e, em geral, as viagens são mais longas, eu sei. Porém, mesmo quando não há lugar vago metrô, uma pessoa idosa não demora a encontrar alguém mais jovem disposta a levantar e ceder o seu.
Já no ônibus, a disputa é selvagem. Ninguém fica em pé para deixar o assento preferencial vazio e quem o ocupa ainda torce para que a senhorinha que entrou não pare por perto...

Além disso, no metrô, não tem pichações, não tem chiclete colado nem embalagens dobradinhas escondidas entre bancos. Logo, não tem baratas. Eu, pelo menos, nunca vi. Se tiver, certamente é em quantidade bastante reduzida.

Então, por que somos mais bem educados no metrô? Essa dúvida continua me martelando. Por que a passagem é mais cara? Por que é mais confortável? Por que é mais rápido? Ou por que te pedem desculpas por freadas bruscas, justificam uma parada entre estações e se preocupam para que você não enfie o pé no espaço entre o trem e a plataforma?

Ah é! Ainda ia esquecer dessa. No metrô, não dá para não parar no ponto. Ainda assim, há a preocupação para que você esteja atento ao sair. No ônibus, muitas vezes, o motorista já está acelerando quando você coloca o pé no primeiro degrau para subir. Ou já fecha a porta quando você nem terminou de descer. Isso quando não passa direto pelo ponto ou para no meio da rua. E aí, o "vão" para o qual você tem que atentar é de asfalto e nele passam carros, motos, bicicletas, caminhões e outros ônibus. E não tem ninguém pedindo desculpas ou dizendo "fique atento".

Não somos perfeitos no metrô, é claro. Ainda temos que aprender a não ficar parados na porta se não vamos saltar (essa lição vale para o ônibus também), a esperar os coleguinhas saírem antes de entrarmos e a não empurrar quem está indo na mesma direção que a nossa, uma hora todos chegaremos lá.

Aliás, essa do embarque X desembarque, o pessoal do Metrô Rio está tentando nos ensinar. Já até desenhou para ver se conseguimos entender. Em algumas plataformas, há setas amarelas pintadas no chão, não sei se vocês já repararam, bem na direção em que param as portas do metrô. Duas na direção das extremidades da porta, indicando o movimento plataforma – metrô; e uma na direção central da porta indicando vagão – plataforma.

Vendo que desenhar não era suficiente, começaram a colocar fitas (daquelas que ligam pedestais, usadas para organizar filas) separando, na plataforma, a área de quem embarca da de quem desembarca. Resolvido o problema? Não! Quem nos dera, né? Quem está esperando o trem passou a se aglomerar entre as fitas, formando um pequeno curral de pessoas prontas para invadir a primeira porta que se abrir diante de seus olhos, todas pisando na seta justamente na direção contrária ao seu movimento!


Mas, voltando ao assunto à minha grande dúvida, ainda to procurando o que define nosso tipo de comportamento nesses meios de transporte. O que determina quão educados e gentis seremos em cada situação e como decidimos isso? Decidimos isso? É consciente?


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O balanço


O vento forma ondas
Na areia e no mar
E, de tanto os pequenos grãos rearrumar,
O vento formou lagoas para o povo se banhar

Na mesma direção,
Ventam as folhas dos coqueiros
E os cabelos das Iracemas,
Como todas as meninas daqui gostariam de se chamar
Das mulheres rendeiras às mulheres rendá

As saias a dançar
As peneiras a farinhar
As redes a embalar

A castanha de caju a sorrir
Como fazem os cearenses,
Que encurvam até a voz no jeito de falar

Tudo dança, rebola e encanta
No Ceará, nada é linear


quinta-feira, 25 de julho de 2013

Rio, 14 graus

É só o inverno chegar que a gente descobre quem já foi pra Europa. E descobre também que é engraçado. “Ai, carioca é muito engraçado. Se agasalha no Rio. Eu já fui pra Europa e sei o que é frio de verdade.” Vamos analisar a situação...

Meu corpo está habituado a uma temperatura entre 25º de 40º. Um “belo” dia, faz 14º (CATORZE GRAUS!) e meu corpo é que é exagerado de enviar para o meu cérebro a mensagem de frio? Exagerado é quem tem que esperar um inverno europeu para colocar um cachecol.

Ainda tem mais essa: cachecol e luvas são o parâmetro do exagero, são os elementos que tornam você um “carioca engraçado”. Se estiver de sobretudo e botas, então, pode se candidatar ao posto de “carioca hilário”. Porque estar de blusa e casaco – duas camadas para aquecer a barriga, os braços e as costas -, beleza. Mais ai de você se quiser proteger as mãos e o pescoço. Esses merecem congelar. Qual é a da rejeição?

E a crítica ao “carioca engraçado” vem sempre com um ar de superior, como se o frio europeu fosse um conhecimento que desse mais valor ao turista brasileiro. Mas, agora falando sério, qual é o problema de quem sente frio se agasalhar? Qual é o defeito ou erro do carioca que usa cachecol? Acham que não estamos com frio de verdade? Nããããão, colocamos vinte casacos, mas na verdade estamos morrendo de calor e continuamos agasalhados porque... errr... porque... queremos sentir cheiro de naftalina. Improvável, não?

“Ai, Carol, você que levou para o lado negativo e interpretou como uma crítica. Nós, todas as 127 pessoas no Facebook que dizemos que carioca é engraçado, estamos apenas fazendo um comentário inocente, não temos nada contra o fato de o carioca se agasalhar.” Não, não acredito. Simplesmente porque acho que, quando não tem ninguém olhaaaando, na hora de dormiiiir, todo mundo vira “engraçado”, calça meias e se cobre com edredom até o nariz. Quando estão no carro com insulfilm para não serem reconhecidos, ligam o aquecedor. Então, pronto, tá frio.

Não acho que 14º seja igual a 0º ou a -10º, claro que não. Mas ainda não desenvolvi a capacidade de informar à minha pele que “oooolha, daqui a seis meses, vai fazer um frio muuuuito pior que este a alguns milhões de quilômetros de distância, por isso, pare de tremer corpo mal-criado”.

E corpo também não tem memória para temperatura. Se tiver, do ponto de vista biológico, o meu é esclerosado. Da primeira em vez que viajei ao Hemisfério Norte no inverno, prometi: “nunca mais vou reclamar do frio do Rio”. Mentiiiiiira. Não cumpri. Reclamei assim que a temperatura passou dos 20º. Para baixo, é claro. E esse é meu pecado a cada inverno – descumprir uma promessa. Podem me criticar por isso, não pelo meu cachecol.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Segunda voz

“Vamos vender um milhão de discos”, garantia Welson, mais conhecido como Luciano. Bem mais novo que Mirosmar – mais conhecido como Zezé -, ele incentivava o irmão a persistir na música e acreditar que um dia “vai dar certo”. Zezé, casado e com duas filhas, já não se dava o direito de arriscar. O irmão, cheio de juventude, também já era pai, mas ainda sonhador.

Essa foi a cena que mais me marcou em "Dois Filhos de Francisco", filme ao qual assisti ontem pela primeira vez. Não sei se viajei demais, se filosofei demais. Diga-me você, que já assistiu ao filme ou que leu a descrição da cena ali no primeiro parágrafo.

Realidade ou licença poética, no filme, é Luciano quem desperta a esperança nos sonhos de Zezé, e a segunda voz da dupla fala mais alto. A cena mostra o processo de convencimento. Não muito difícil, é verdade, a partir do momento em que Zezé escuta sua segunda voz em vez de abafá-la como fazemos, quando escutamos somente a razão, quando escolhemos o caminho padrão.

Mas por que calar um sopro de juventude que tem algo a nos dizer? Por que não dar atenção como se estivéssemos sem paciência para um irmão mais novo? Por que deixar nossos sonhos sempre com a segunda voz, se eles podem estar tentando nos mostrar o caminho do sucesso?


O enredo que conta a história da dupla sertaneja dura, ao todo, cerca de duas horas. Mas me identifiquei mesmo com esses aproximadamente 20 segundos. Escutando os argumentos de Luciano, pensei: ele estava certo. O incentivo levou a dupla às rádios, às lojas de discos, aos palcos. E, gostos musicais à parte, não podemos negar, eles fizeram sucesso. Venderam um milhão.


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Acordar

É o incômodo
Que me faz levantar

Ele me martela
A cabeça
A alma

É essa pressão
Que me faz levantar

Para mudar
O dia
O mundo

É essa vontade
Que me faz levantar

Para fugir
Das regras
Dos limites

É essa liberdade
Que me faz levantar

Acreditando
Nos sonhos 
Que podem dar certo

É essa criança
Que me faz levantar


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Nã-nã-ni-nã...

Sabe, eu tenho uma peninha do "não". Ele existe e vale tanto quanto o "sim", os dois são igualmente importantes em qualquer língua. Mas o "sim" é sempre... Ah, o "sim" é sempre bem-vindo, é sempre o bonzinho da história e é tão... independente.

Sim, porque o "não", coitado, nunca consegue agradar, se estiver sozinho. Para não ser mal-visto, costuma ser seguido por seu amigo "sinto muito", disfarçado no meio de um "Hoje, não vai dar" ou antecipado pelo "Gostaria muito, mas".

Porque se alguém solta um "não" assim, nu com um ponto final, sem véus e enfeites, como alguém que só quer negar, o "não" torna-se grosseiro, ríspido, hostil.

O "não" solta uma lágrima tímida do canto do seu til cada vez que alguém fala que não gosta de dizê-lo. Há quem evite encontrá-lo num diálogo e foge do assunto, faz sacrifícios injustos consigo mesmo, tudo para evitá-lo.

E o "não" lá, só esperando seu momento, preso na garganta, ou num coração apertado. Ele espera ser levado pelo vento depois de solto por um par de lábios qualquer. O "não" não quer estar em corações, ele quer ir de lá para cá, daqui para lá, preenchendo umas lacunas, ajeitando uns "sins" mal colocados por aí.

Coitado do "não", ele só queria ser falado livremente, quando fosse necessário, sem disfarces, com sinceridade, sem precisar se esconder e sem fazer mal a quem o escuta ou a quem o diz. Mas não.



segunda-feira, 11 de março de 2013

Eu faço a comida, você lava a louça

Os homens vão continuar não realizando atividades domésticas enquanto as mulheres continuarem cobrando ajuda nas atividades domésticas. Não é uma questão de inverter os culpados, mas de responsabilizar todos igualmente. Cobrar ajuda no que é obrigação é como pedir por favor. "Ajuda" remete a um auxílio complementar a uma atividade de responsabilidade de outrem.

Enquanto homens e mulheres não se virem totalmente (e igualmente) responsáveis por todos os aspectos que envolvem o lugar em que vivem e não ensinarem isso às crianças que por ventura também convivam naquele espaço, nada vai mudar. Principalmente, enquanto não houver essa visão equilibrada. Porque esse post é menos sobre o que falta nos homens que sobre o que sobra nas mulheres que se veem totalmente responsáveis por determinadas tarefas e não consideram que os homens que dividem o espaço com ela têm a mesma obrigação. Sejam maridos, filhos, pais, irmãos, cunhados...

Enquanto houver mulheres que acordam aos domingos pensando no que farão para o almoço, haverá homens lhe perguntando o menu do dia. Ou enquanto mulheres pegarem as roupas dos homens para passar, derem um pontinho quando descosturar, ou colocarem vanish quando manchar porque acham que eles não saberão como fazer, nada mudará. Enquanto as mulheres não pararem de se esquecer como aprenderam a passar, lavar e cozinhar... Não foi tão difícil, eles também conseguem.


Ou enquanto mulheres trocarem fraldas sujas para, cheirosas, as crianças pularem no colo do papai para brincar. Enquanto as mulheres varrerem o chão e colocarem o lixo para fora. E os homens a descansar...
Enquanto pessoas ainda se surpreenderem com um homem que arruma a própria cama, tudo continuará na mesma. Enquanto homens receberem parabéns por fazerem suas obrigações, tudo continuará na mesma. Enquanto mulheres continuarem exaltando seus maridos no Facebook por, surpreendentemente, encontrarem a janta pronta e o filho de banho tomado, ao chegarem em casa cansadas, elas nunca deixarão de se surpreender. Se ele estava em casa com a criança e o fogão, por que não?

Se a sociedade não é feita só de homens ou só de mulheres que todos nos sintamos igualmente responsáveis pelas mudanças que se fazem necessárias, conscientes de que sempre nos dará mais trabalho mudar que nos incomodar e acomodar.

Não excluo, de maneira nenhuma, a responsabilidade dos homens de tomarem a iniciativa, mas, nesses últimos 24 anos, tenho visto muitas mulheres contribuindo com essa inércia no lar.


Acho justo dividir tarefas por habilidades individuais. Cada pessoa tem mais facilidade em determinados afazeres e acredito que isso deve ser respeitado até para evitar pessoas diariamente insatisfeitas ou resultados mal realizados. O que não acho justo é a divisão por gênero - esse critério que costuma desequilibrar os trabalhos em casa.


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Encantos de samba-rock

Árvores secas são inspiradoras, as floridas também.

Flores desabrochadas são românticas, as murchas também.


O sol se pondo  é poético, o amanhecer  também.


O sol quente é energizante, a tarde chuvosa também.


Uma praia tranquila revigora, o mar de ressaca também.


Os tímidos são misteriosos, os  extrovertidos também.


Cabelos encaracolados são encantadores, os lisos também.


Olhos azuis são marcantes, os negros também.


A pele jovem é bonita, rugas com história também.


O som entretém, o silêncio também.


O samba faz mexer o corpo, o rock... 

Bem, o rock  faz mexer a cabeça e batucar os pés. Então, também.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

De volta ao presente

A moda, não de agora, mas a que surgiu há algum tempo e ainda permanece, é ser retrô. Ou vintage. (E, sim, há uma diferença que não vem ao caso entre os termos.) O fato é que está na moda fazer referência ao antigo. O próprio estilo  hipster, que vive seu auge desta época, utiliza esse recurso e os mais descolados acham super cool. Mas, vai colocar uma roupa que era moda no verão passado... "Que roupa ridícula!"; "ele ainda usa isso?" serão  os comentários a seu respeito no dia seguinte. Ou na sua presença mesmo, pelos celulares. Fora os olhares de desprezo.

Flash back, tudo bem. A geração mais jovem já vai a festas anos 90. Digo "mais jovem" porque os que têm menos de 20 anos ainda não tiveram um passado musical com histórico suficiente para preencher a playlist da discoteca. Ou do baile, dependendo da geração a que seu estilo faça referência. Mas veja o que acontece se o DJ da rádio tocar aquela música do ano passado. "Nossa, que música velha!", as pessoas dizem em repúdio, trocando de estação.

A música que você dançava loucamente ano passado tornou-se ruim alguns meses depois? Como foi esse veloz processo de perda de qualidade? Nada contra metamorfoses ambulantes, mas rejeitar dizendo que é ruim  não seria depor contra si mesmo? A roupa que você usou na estação anterior ficou feia de repente? Mas aquela anos 70 continua fazendo sucesso, né? Ou melhor, voltou a fazer sucesso. Por quê? Saudosismo à la Meia-noite em Paris? Por que o ano passado também não tem o privilégio de ser adorado hoje? Por que ele só será adorado daqui a 20 anos?

Bem, como perceberam, ainda não consegui acompanhar a lógica do velho-ruim X velho-novo-bom. Prefiro não me privar do que gostei ano passado, se ainda me agradar, sem esperá-lo voltar à moda. E mesmo se o velho tiver virado novo outra vez, prefiro não datar e usar apenas, se gostar.

E essa lógica, deu pra acompanhar?


domingo, 30 de dezembro de 2012

O meu-esporte e o MMA


Como leiga em esportes, eu pergunto: MMA é um estilo de luta criado há pouco tempo? Porque, se não me falha a memória, não tem nem cinco anos que a mídia descobriu que transmitir UFC poderia dar audiência. Até então, sequer eram mencionados os resultados das lutas nos telejornais. Eu, em minha ingenuidade, acreditava que as lutas não eram tão populares como outros esportes pelo seu caráter mais agressivo, que não combinava muito com a grande massa. Mas, de repente, descubro que combina, sim. Aliás, aparentemente, sempre combinou. De um dia pro outro, tem uma galera que acompanha as competições, conhece os lutadores e torce fervorosamente. Beleza, acho estranho, mas, na prática, isso não me afeta em nada.

O que quero destacar é uma questão que tem me martelado desde o “boom” do UFC. Sempre acreditei – olha eu ingênua mais uma vez - que a prática de esporte estava ligada a saúde e bem-estar. Sempre admirei esportistas, não só os profissionais que se dedicam integralmente ao esporte, mas, principalmente, aqueles capazes de inserir as atividades em suas rotinas de gente comum, seja por vaidade, saúde ou lazer.

Mas, voltando à questão que me importuna... MMA não se insere no conceito de esporte formado em mim. Na minha cabeça, quem pratica esporte sempre está sujeito a acidentes, mas, em geral, o resultado é uma mente tranquila e um corpo embriagado de serotonina, ou seja, uma pessoa feliz e saudável.

Daí, eu vejo hematomas, orelhas deformadas, narizes quebrados e sangue jorrando em todas as competições... Não consigo me convencer de que isso esteja ligado a saúde e bem-estar. Não deixo de admirar a preparação física, a concentração e a disciplina de quem luta, mas uma atividade em que os participantes, invariavelmente, saem machucados, feridos e sangrando não cabe no meu conceito-feliz de esporte.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Filtro solar


Nasci oito dias após o início oficial do verão. E eu não poderia ter nascido em outra estação. Comemoro primaveras na estação em que os dias são mais longos e as tardes são encerradas com chuvas de verão - breves e refrescantes, como pílulas homeopáticas das águas de março, que encerram a estação.

E quando as noites de verão chegam trazem a brisa cheirosa que nos faz ficar mais tempo fora de casa, caminhando no calçadão ou sentados no banco da praça.

É a estação das pessoas coradas e bronzeadas, das pessoas molhadas de suor, de mar.
É a estação das festas, das férias, das confraternizações, do réveillon, do carnaval. Como não ser feliz no verão?
É a estação das bermudas, dos vestidinhos soltos e do chinelo de dedo.
É a estação das cores vibrantes no céu azul, no sol amarelo que brilha sobre as folhas verdes.
É a estação das curvas nas ondas, nas marcas na areia, nos cabelos ao vento, nas danças ao entardecer, no ângulo preciso da Terra para os raios certeiros nos atingirem.

A estação em que nasci é a que me faz sentir mais viva, com o sol vibrante tocando a pele molhada cheirando a filtro solar, o vento fraco nos aproximando do mar e as pessoas quentes de calor e espírito festejando cada céu estrelado ao luar. Sem hora pra acabar. Horário de verão.


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Uma longa viagem*



"Ah, um lugar na janela!", comemorou, apressando-se para que ninguém lhe roubasse o assento privilegiado.
O caminho era longo e havia grandes possibilidades de o ônibus ficar bem cheio de gente. Então era bom garantir que não seria importunada pela multidão que logo ocuparia o corredor. Joyce sentou satisfeita à janela que seria sua durante a próxima hora e sacou a revista que lhe ajudaria a diminuir a sensação de demora. Estava ansiosa, afinal iria encontrar o amor da sua vida.

Não tinha passado muito tempo e um passageiro sentou-se ao seu lado. Ficou na dele, trocando mensagens pelo celular, nada que atrapalhasse sua leitura ou tranqüilidade. Parecia ser como ela, gostava de ficar quieto e introspectivo em coletivos. Tanto que, assim que vagou um lugar sem ninguém ao lado, duas fileiras a frente, ele não hesitou em pular para um dos bancos vazios. Mas estranhamente não escolheu a janela, sentou no corredor.

"Se ele gostava do corredor, porque não continuou onde estava? Será que eu estava incomodando? Bem, só espero que a próxima pessoa a sentar do meu lado seja tão quieta quanto ele. Será que devo mudar para o banco ao lado só por garant...?" O pensamento de Joyce foi interrompido pelo cheiro de álcool que seu novo vizinho exalava.

Abriu mais a janela para que o vento lhe acertasse em cheio as narinas. Já dispersa de sua leitura, começou a temer que o cara quisesse interagir de alguma forma inconveniente. Temia mais ainda que ele vomitasse ao se lado ou, pior, em cima dela. Ficou quieta, fingindo estar concentradíssima na leitura e, de vez em quando, erguia o nariz para o vento.

O homem abaixou a cabeça de olhos fechados, parecia dormir. O que era um problema, pois sua condição vulnerável fazia com que seu corpo balançasse conforme o movimento do ônibus. Joyce ajeitou-se, afastando-o discretamente com o ombro direito.

_ Me avisa quando chegar na Avenida das Américas?, soltou repentinamente o bêbado com um sotaque estranho, como se tivesse sonhado com a avenida que corta a Barra da Tijuca.

_ Claro, respondeu Joyce rapidamente querendo se livrar do bafo forte.

_ Não precisa ter medo de mim.

"Que bêbado perspicaz!", pensou ela como se fosse um xingamento enquanto tentava transparecer tranqüilidade:

_ Tudo bem, não estou com medo.

_ Você não precisa ter medo de mim porque eu tenho esposa e filhos.

_ Tudo bem, não estou com medo, repetiu perguntando-se por que ele não voltava a cochilar.

Agora, ela nem podia ignorá-lo e apontar o nariz ao vento sob risco do tagarela alcoolizado sentir-se ofendido.

_ Eu sou da Angola e estudo Agronomia, revelou o homem.

"Ok, te dou uma chance, pode ser uma boa história, afinal", pensou Joyce.

_ Há quanto tempo você mora aqui?

_ Dezesseis anos. Eu sou pintor. Se quiser pintar sua casa, me chama porque eu não faço uma pintura comum, faço texturas. Com o que você trabalha?

_ Sou publicitária.

_ Onde você estudou?

_ Na UFRJ.

_ No Maracanã?

_ Não, na Praia Vermelha.

Diante da expressão de interrogação, ela completou: _ Na Urca.

_ Ah, eu conheço a Urca, já trabalhei lá.

_ Onde você estuda Agronomia?

_ Na UFRJ.

Joyce desconfiou da informação: _ No Fundão?

_ É.
Olha, você não precisa ter medo de mim porque eu trabalho, tenho esposa e filhos. Essa é minha vida, não te faria nenhum mal. Sabe por quê? Porque eu acho que eu posso precisar da sua amizade um dia...

_ Ahn...

_ Para onde você está indo?

_ Encontrar meu namorado.

_ Que bom que você tem namorado. Você tem filhos?

_ Não.

_ Quer ter filhos um dia?

_ Sim.

_ Quantos? Um, dois, três...?

_ Três, soltou Joyce sem pensar em sua real pretensão.

_ Trêêêêês?!

_ Quantos filhos você tem?

_ Nove.

_ Ahn... Pequenos?

_ O mais velho tem catorze anos.

(silêncio...)

O angolano fica pensativo e Joyce chega a acreditar que a conversa chegara ao fim. Mas, de repente, ele volta os olhos para ela novamente e pergunta, como se fosse a primeira vez:

_ Quantos filhos você quer ter?

_ Três.

“Por via das dúvidas, é melhor manter a mesma resposta”, pensa Joyce.

_ Trêêêêêês?!

Joyce não se contém e solta o primeiro riso daquela conversa.

_ Aaaah, você já não está com medo de mim!, constata o angolano com satisfação. _ Por que você teve medo de mim no início?

_ Em geral, eu ando com medo na rua, confessou Joyce. E justificou: _ A cidade é muito perigosa.

_ É verdade. Mas eu não vou fazer mal a você. Eu quero ser seu amigo. Sabe por quê? Você conhece o mapa Mundi?

_ Sim.

_ Se você reparar a América do Sul e a África se encaixam.

Nessa hora, Joyce tem um pensamento irônico: “Ah, sim, um ótimo motivo para sermos amigos.”

O angolano continua seu raciocínio:
_ Acredita-se que essas partes estavam juntas muitos anos atrás e eu acredito que elas ainda estão em movimento porque antigamente eu demorava oito horas e meia para vir de Angola para cá. Agora, demoro sete horas e meia.

Surpresa, Joyce julga aquela informação realmente interessante.
_ A Angola é violenta?

_ Não mais porque a guerra acabou.

_ Mas tem muito assalto, seqüestro...?

_ Ah, sim, igual aqui!

_ Então, é violenta.

_ Qual é o seu nome?

_ Joyce.

_ O meu é Mathias, fala exibindo a palma da mão direita.

Joyce corresponde educadamente e o aperto de mão dura mais tempo do que ela pretendia.

_ No início, você teve medo de mim, não sei por que e não quero saber, mas você não precisa, tá? Eu não vou te fazer mal, quero ser seu amigo.

Joyce sorri tentando ser simpática e rapidamente vira o nariz para a janela com receio de ficar embriagada pelo cheiro forte daquelas palavras.

_ Você sabe onde estou indo?

Apesar da resposta óbvia, Mathias aguarda escutá-la dos lábios de Joyce.
_ Não. Onde?

_ À casa da minha namoradinha

_ E sua esposa?

_ Nossa separação é certa.

_ Entendo, lamenta Joyce.

_ Não, você não entende. Você soltou a palavra “entendo”, mas você não entendeu.

_ Eu entendi, assegura Joyce.

Mathias dá de ombros desistindo de argumentar.

_ Minha namorada é muito bonita. Ela é de pele branca assim que nem você.

_ Que bom que ela é bonita.

_ Eu não fico com mulher feia.

(silêncio...)

_ Mas isso não é certo porque as pessoas feias também amam, continua.

A peculiar filosofia faz Joyce rir por dentro.

_ Você é bonita, solta ele.

_ Obrigada.

_ Tem gente que é bonita mas se veste mal e tem gente que não é bonita mas se veste bem. Você está bem vestida.

_ Obrigada.

_ Eu estou bem vestido?

Joyce analisa a vestimenta do angolano, como se ela fosse dar uma resposta sincera:

_ Está.

Mathias agradece e sorri largamente comemorando o elogio.

_ Qual é o seu nome?

_ Joyce, responde ela com preguiça de repetição.

Ele mostra a palma da mão novamente e se cumprimentam mais uma vez.

_ Você é brasileira?

_ Sou.

_ Do Rio?

_ Sim.

_ Mentira!

_ Verdade.

_ Mentira.

_ Eu pareço ser de onde?

_ De Minas.

_ Porque eu sou muito branca?

_ Não.

Ele repensa...

_ Se bem que quem fala com estrangeiro ou é carioca ou é baiano.

Joyce tenta encontrar lógica na informação...

_ E se eu quiser te encontrar?, pergunta ele.

_ Como assim?, questiona Joyce para ganhar tempo e não precisar dar informações a um desconhecido bêbado em uma cidade em que ambos concordam ser perigosa.

_ Se eu quiser te ligar e falar “preciso encontrar você”, como eu faço?

Joyce dá de ombros, pressiona os lábios e ergue as sobrancelhas como quem diz “Tenta a sorte de me encontrar por aí.”

_ Eu moro na Praça Seca, na Rua do Sítio, casa do Pequeno. Não precisa ter medo de mim. Onde você mora?

_ Na Freguesia.

_ Eu nunca vou te fazer mal. Meu pai me ensinou: “Não machuque alguém porque o machucado vai doer mais em você”.

_ Bonito.

_ Quantos filhos você quer ter?

_ Três. E meu nome é Joyce.

_ Trêêêêêês?!

Joyce pega mais um ar na janela.

_ Um dia você vai contar de mim para os seus amigos.

_ Vou mesmo.

_ Aqui já é a Avenida das Américas?

_ Sim.

_ Vou descer.

Mais um aperto de mão.

_ Boa sorte e tudo de bom, deseja Joyce com sinceridade.

_ Obrigada.

Mathias salta e acena pela janela. A porta fecha.

_ Joyce suspira aliviada.

O cara sentado no banco da frente logo se vira:
_ Está tudo bem?

_ Sim, obrigada.

_ Eu estava agoniado...



_ Está tudo bem, garante Joyce.

_ Você vai ter uns quinze filhos, né?

Joyce ri.







*Uma viagem inspirada em fatos reais.




quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A cidade que nunca dorme


Uma das coisas mais saborosas (literalmente) de Nova York são as tortas de maçã vendidas em qualquer uma das inúmeras confeitarias existentes por lá. Em inglês, o doce leva o sonoro nome de “apple pie”, assim, num crescente, com vários P’s, como uma combinação de notas musicais.

Não haveria nome mais apropriado para o doce da “Big Apple”, a cidade em que se ouve um saxofone em cada esquina. Ou em cada estação de metrô. O que, na prática, dá quase na mesma. Pode-se ir a qualquer lugar dentro de Nova York (e até a alguns fora da cidade) usando o trem. Alugar um carro por lá é estragar a viagem, é se fechar no ar condicionado e deixar de sentir os cheiros que o vento traz. É perder um artista que faz da calçada seu ateliê, é deixar de tocar as pedras de um edifício residencial com entradinha em nível mais baixo que a calçada, é não se encantar com uma flor de cor inusitada.

E é assim, por caminhos pelos quais não se passa correndo, que se decide entrar e uma estação de metrô e, em 20 minutos, atravessa-se Manhattan de uma ponta à outra e, em 40, chega-se até a outro estado, se estivermos falando de um brasileiro-ávido-por-compras-no-exterior que quiser dar um pulinho em Nova Jersey para visitar “Outlet malls”.

Aliás, minha (humilde) dica é para que não se gaste mais que 10% do tempo com compras em uma cidade tão rica culturalmente. Gaste mais dinheiro em peças, museus, show e “tips” para os artistas de rua que em roupas, perfumes e eletrônicos, se o que se busca é enriquecer e não pagar excesso de bagagem.

E se você não estiver satisfeito com os músicos por toda a parte, pode dar uma conferida em um especial (não necessariamente especial enquanto músico), indo a um restaurante com música ao vivo onde o clarinete é tocado por ninguém menos que Woody Allen. E é por causa dele que “o restaurante com música ao vivo” torna-se “um show no qual se pode pedir comida”. Sim, porque, apesar de outros quatro ótimos músicos no palco, ninguém tira os olhos de Mr. Allen, ninguém deixa de dar uma risada a cada trejeito peculiar do cineasta.

E se pegar um dia chuvoso de outono, não se considere sem sorte, é uma ótima oportunidade para passar a tarde no Metropolitan Museum of Art, onde se encontra, em único (e enorme) lugar, algumas daquelas obras de arte que se vê em livros e exposições esporádicas para todos os gostos. Eu mesma, que aprecio arte como leiga, fiquei encantada, há alguns anos, com uma exposição sobre moda e os estereótipos de beleza e, da última vez, deliciei-me com Andy Wharol na mostra “Sixty Artists, Fifty Years”, que reúne obras do próprio Wharol e de artistas influenciados por ele.

Enfim, uma cidade com muitas opções para tudo na qual você só precisa pegar longas filas se estiver muito ansioso para assistir ao novo Atividade Paranormal ou para comprar ingressos para o show do Bruno Mars. Às vezes, é preciso enfrentar uma para ir ao banheiro também, mas aí vem uma boa notícia para as mulheres: todos têm papel. Todos mesmo, incluindo o banheiro público da praia de Coney Island.

Enfim (como eu ia dizendo), com tantas opções, se, depois do jantar, você ainda não tiver night certa no Village, na dúvida, vá para a Times Square, mais quente que os outros pontos de Manhattan. Desconfio que seja pela grande quantidade de luzes e de gente.

Bem... Vá lá, batuque uma música qualquer com o pé, eleja uma confeitaria e peça uma fatia de épolpai.
Ah, e só durma se não tiver outra opção.





terça-feira, 9 de outubro de 2012

Futuro atual


Não tenho nostalgia da infância. Simplesmente não tenho. Não sinto saudades de "um tempo que não volta mais". Também não acho que eu "era feliz e não sabia". Não que eu não fosse feliz. Não que eu soubesse que eu era. Quando somos crianças não sabemos muitas coisas, né? Mas é um tempo bom na lembrança, no passado, não precisa retornar e interferir no presente, que também pode estar sendo tão bom quanto e talvez deixe saudades...
"Ah, mas era bom não ter contas para pagar", dirão alguns. Mas também não era legal ter só o dinheirinho do lanche, né? Ou a mesada contada para comprar gibi, exceto nos meses em que não era lançado um CD daquele ídolo. É, CD, sou dessa época...
“Ah, mas era bom não precisar trabalhar”, afirmarão outros. Mas isso não era tudo o que queríamos quando precisávamos estudar os tipos de células humanas? Sonhávamos com o dia em que só estudaríamos e trabalharíamos com o que quiséssemos.
É, não é bem assim... Mas sabe que trabalhar em vez de estudar não me aborrece tanto? Sem desmerecer os estudos, me encanta ter uma atividade mais ativa que não apenas acumular conhecimento. Me encanta colocar conhecimento em prática, fazer parte da engrenagem que faz o mundo girar, sentir que não estou aqui de passagem e que sou capaz de fazer diferença pelo menos no meu mundinho pequenino...
“Ah, e não tínhamos tantos problemas e preocupações”, mas a vida sem tédio é feita de problemas a serem resolvidos e preocupações a nos ocuparem. Pelo menos enquanto tivermos energia para tanta ocupação.
Então, nada melhor que as tarefas de hoje, os estudos de hoje, os amigos de hoje, as preocupações de hoje, o dinheiro de hoje e as contas do mês que chegam com data de vencimento.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Sonho e realidade


Viajar é como sonhar, é viver sensações que não são reconhecidas pela memória, é visitar lugares nunca antes imaginados. Viajar é tocar novos solos, andar contra novos ventos, sentir novos perfumes. Viajar é escutar novos sons, testar pronúncias que nem sabíamos que nossos lábios eram capazes de produzir. É deixar que esses mesmos lábios testem novos sabores. É escutar expressões e entonações cotidianas que caracterizam um povo e sua cultura. É tocar a textura de novos climas, flores, frutos, pedras, águas. É ver as formas próprias do relevo de cada lugar.

Viajar é como sonhar, mas não aquele sonho de lembrança remota no dia seguinte. Uma viagem é como um sonho que se questiona se todas aquelas sensações tão nítidas foram reais. Questiona-se quando se desperta com um pulo da cama ou quando se abre porta de casa, com saudades do lar: foi tudo de verdade?

Viajar é viver, é sentir-se parte desse mundo tão imenso e conhecer cada cantinho dele, cada pedacinho único e especial, que não se assemelha a nenhum outro do universo. Viajar é sentir-se vivo quando o mesmo Sol toca a pele em qualquer coordenada geográfica que se esteja.

Viajar é sentir-se parte do mundo, em contato com naturezas tão diversas que fazem a máquina Terra funcionar e nos abrigar. É estar em contato com as transformações feitas pelo Homem e pela Ciência que possibilitaram que aquele ponto único do universo fosse modificado também de maneira única.

Viajar é como sonhar, pois é um hiato de tempo fora da rotina, que em algum momento se fará presente de novo. Viajar é como sonhar, pois se vai a lugares desconhecidos onde se convive com pessoas que nunca mais serão vistas. Viajar é como sonhar porque uma hora temos que acordar - ou voltar. Viajar é viver intensamente. E sonhar intensamente.

domingo, 22 de julho de 2012

Sincero, é?

Seis anos atrás, escrevi uma crônica sobre pessoas que participavam da comunidade no Orkut (viu? foi há seis anos mesmo) “Sou chato e daí?”. No texto, eu duvidava que alguém realmente pudesse sentir orgulho de ser chato.

Pois não duvido mais. Tem gente que gosta, sim. E expõe isso não só virtualmente. Tem gente que acha legal ser chato – por mais estranha que essa frase possa parecer. “Chato” é uma qualidade um tanto quanto vaga, né? Refiro-me aos chatos inconvenientes, que gostam de incomodar mesmo. Em geral, esses são os chatos que mais se orgulham de serem assim, acham que isso é ter personalidade.

Aí a pessoa é “cara-de-pau” e se classifica como “sincera”. E com esse rótulo de “sincera”, ela acha que pode falar o quiser para quem quiser... Sai por aí dando pitaco na vida dos outros, apontando os defeitos na cara dos amigos, colegas e conhecidos... Pode ser que seja tudo verdade, mas pode ser também que o momento e o lugar escolhidos não sejam os mais adequados.

Muitas vezes, o problema nem é com o local e a hora, há casos em que o próprio chato (que se autodenomida “sincero”, é bom lembrar) é o errado, não tem intimidade com o receptor do pitaco supersincero, mas se dá o direito de falar o que lhe der na telha.

Pra mim, ser sincero não é falar tudo a todos. É preciso saber selecionar as opiniões que devem ser emitidas. Ser sincero é tratar bem quem se gosta – e isso significa não expor os amigos de maneira negativa, o que muitas vezes fazem os supersinceros.

Ser sincero é também aproximar-se o mínimo possível de quem não se gosta – e isso, certamente, não inclui dar opinião não-solicitadas. Se fizer isso com o inimigo, aí ta procurando briga... E barraqueiro já é ooooutro defeito.